Dan Zecchinelli dá a dica

O Dan Zecchinelli é capixaba e já trabalhou em agências do Rio, São Paulo, Vitória e Belo Horizonte. Tem na prateleira de casa leões, lápis do Clio Awards, New York Festivals e a lista continua. Eu fui a pequena gafanhota dele, que me passou os ensinamentos milenares de como ser uma boa redatora. Hoje, ele é diretor de criação da agência mineira Filadélfia e veio aqui dar muitas dicas de como fazer títulos fodas. Com vocês, professor Dan Zecchinelli:

 

Dan-Zecchinelli-so-titulos

 Dicas para seus títulos

Tenho a impressão de que o título é hoje um sobrevivente. Como o disco de vinil, só para aficcionados. Qual foi a última campanha (real) que você viu com títulos? Tudo anda tão visual, tão rápido e frenético, e as pessoas estão escrevendo tão mal (reflexo das redes sociais?) que um bom título está mais raro de achar que oxigênio no Everest. Se você reparar, hoje em dia até manchete de jornal tem sido mais criativa do que título de anúncio. Sem contar a imprecisão, principalmente por conta dos clientes: basta você criar um título com um inocente jogo de palavras e eles já dizem que “não querem trocadilho”, sem saber o quanto as duas coisas são diferentes. Fora as ofensas – a quantidade de gente que chama título de “chamada” é inacreditável.

Pois bem, postos esses pontos, a Fabiana me pediu pra dar algumas dicas sobre como escrever títulos. Não sei se sou o mais indicado para isso, porque para mim, criar títulos sempre foi meio sofrido. Sempre precisei fazer dezenas, às vezes centenas, pra tirar 3 ou 4 que prestassem. Mas vamos lá: vou tentar dividir aspectos que eu levo em conta na hora de fazê-los ou aprová-los.

1) Bons títulos não obedecem a regras, e sim a critérios.

Particularmente, gosto de títulos que têm raciocínios mais elaborados. Eles estão no topo da minha avaliação, porque sempre acho que criar um título com um raciocínio envolvendo palavras ou ideias que a princípio não se encaixam é bem mais difícil do que fazer um jogo de palavras. Mas às vezes, ficamos tanto tempo tentando chegar a esse raciocínio que nos apegamos a um título que foi difícil de fazer – e nem é tão bom. Criei dois que me deram bastante orgulho, quando trabalhava no Rio, para a Petrobras como patrocinadora do surf brasileiro. Me lembro de como foi difícil chegar ao raciocínio e à forma do que se refere ao bungee jump, e como me orgulhava dele. Mas hoje nem sei se acho isso tudo mais.

Picture 055 so titulos dan zecchinelli surf 2(direção de arte, Marcos Hosken e Kika Botto)

 

2) Jogo de palavras é um ótimo meio de começar.

Os primeiros títulos que vão pro seu arquivo de word normalmente são dessa categoria. Fiz um pra um anúncio da ESPN, sobre skate, que tinha uma foto de um skatista no halfpipe e o título: “O chão é o limite”. Cliente confunde muito isso com trocadilho, o que é muito diferente. Trocadilho seria dizer, por exemplo, “O seu é o limite”. Outro que gosto muito, criado há muuuuito tempo, era um anúncio tijolinho para o Banespa, numa campanha para as pessoas pouparem o 13º, e não gastarem: “Um dos reis magos deu ouro no natal, mas ele era rei. E mago.” Jogo de palavras com raciocínio de presente.

Bob Burnquist perform Skateboardingso titulos dan zechinelli

(direção de arte, Kika Botto e Paulo Pereira respectivamente)

 

3) Procure ideia onde ela aparentemente não existe.

Uma vez criei títulos para um bactericida, cujo briefing era: bactérias deixam as pessoas doentes. Use nosso produto e evite que isso aconteça. A ideia saiu dos nomes das ditas cujas.

dan zechinelli so titulos bacteria(direção de arte, Waldemar França)

 

4) Trocadilho: use com moderação.

Às vezes dá certo, na maioria das vezes, não. Alguém já disse que o trocadilho é a forma mais baixa de humor (googlei e há controvérsias sobre o autor). Eu tenho um que gosto muito, para dizer que a Master tinha sido a vencedora do prêmio Abril na opinião do leitor. Mas eu só aconselho você a se aventurar nessa seara se o seu critério já for bem elevado, ou se você for um gênio do trocadilho, como os redatores que trabalham comigo, Flávio Chubes e Manuel Rolim.

so titulos manuel rolim chubes dan zechinelli(direção de arte: André Mantelli)

 

4) Seja estúpido.

Até o Mohallem (ou principalmente ele) faz títulos estúpidos. E a estupidez pode alcançar um estado de graça, ou de arte. Uma vez tinha que criar um anúncio de cerveja que ia ser posicionado ao lado da primeira página do ensaio principal da Playboy. Simplesmente colocamos a foto da cerveja, e o título era: “Olha pra cá. Olha pra cá. Olha pra cá.” Para um festival de música eletrônica, um título bem idiota. E numa outra campanha que fizemos para a clínica Origen, de fertilização humana, saiu um título estúpido que gosto muito. E que comunica bem o benefício.

dan zecchinelli 2 (direção de arte: Paulo Pereira) dan zecchinelli 3(direção de arte, Waldemar França) dan zecchinelli 4(direção de arte: Carol Penido)

 

5) Procure os diferenciais e os benefícios.

Quando o Pátio Savassi foi lançado, era um shopping aberto, em oposição aos outros shoppings, mais fechados e escuros. Foi esse diferencial que inspirou alguns títulos da campanha.

353043.TIF 353043.TIF (Títulos: Ildeu Filho e Dan Zecchinelli. direção de arte: Wagner Lanna)

 

6) O alltype, esse injustiçado.

Eu gosto muito de anúncios alltype. Especialmente em jornal, funciona muito bem (e dependendo do briefing, em revistas também). Um fundo branco com um titulão em preto, hoje em dia, pode chamar mais a atenção do que uma imagem bem produzida e cheia de detalhes – principalmente porque poucos estão usando esse recurso. Tenho 2 exemplos, ambos no tamanho de 1 página de jornal. O do Instituto Mário Penna inclusive entrou para o anuário do CCSP.

dan all type so titulos dan all type so titulos 2

(direção de arte: Marcos Hosken e Kika Botto e Carol Penido e Wagner Lanna, respectivamente)

 

7) Peça ajuda ao amigo diretor de arte.

Muitas vezes, uma cama de layout ajuda muito o título. Criamos uma vez para a extinta loja ByU, que vendia só os calçados Melissa, uma campanha para a coleção Plasticodelic. Os layouts coloridões ajudaram os títulos, que sem eles, não seriam tão soltos e tão malucos. Os títulos que fizemos para o Grupo Vhiver também: eles funcionariam em um esquema alltype, mas com a foto da pessoa ao fundo, ganham em dramaticidade.

dan so titulos diretor de arte 2 dan so titulos diretor de arte 1(direção de arte: Waldemar França)

dan so titulos diretor de arte 3dan so titulos diretor de arte 4(direção de arte: Rivadávia Coura e Lucas Queiroz)

 

8) Título também tem forma.

Uma vez que você tenha a ideia do título, trabalhe na forma. Dê uma burilada, invista escreva de várias maneiras, troque os elementos de lugar. Tudo tem um ritmo, a leitura também. As vezes mudar uma palavra por um sinônimo, ou trocar de lugar, melhora muito o jeito do consumidor ler e entender o que você quer dizer. Particularmente, não gosto de títulos com 3 pontos finais, acho que prejudica o ritmo. Mas isso é um critério muito particular.

Usei como exemplos títulos meus, ou nos quais atuei efetivamente como redator. Quase todos são bem antigos, porque já não tenho atuado como redator no dia a dia – simplesmente não sobra tempo, e sem praticar, a gente vai perdendo a mão. O que me leva às últimas dicas:

9) Pratique, pratique, pratique.

Tem gente que tem muita facilidade para criar títulos. Tem gente que não. De qualquer forma, você só vai saber qual é o seu perfil fazendo muito. E quando eu digo muito, não são 10. São 50, 100 títulos. A prática faz você melhorar muito, descobrir atalhos, até chegar ao ponto de fazer 20 títulos e tirar 4 ou 5 bem bacanas. Mas isso, assim como o critério, você só vai ganhar com o tempo. E trabalhando com gente boa.

10) Dê um empurrãozinho no seu critério

Por último: adsoftheworld e esses outros sites de publicidade são só referência. Se você quer mesmo título bom, procure nos anuários do CCSP e no One Show. Cannes costuma ser um deserto de títulos e a Archive também.

 

André Kassu dá a dica

Quem está no caminho da redação publicitária com certeza conhece o nome André Kassu. Um redator muito foda que já faturou muitos leões em Cannes (inclusive GP),  já trabalhou para as agências mais admiradas do mundo, quase virou músico de blues ao invés de redator, nada como terapia, escreve mais do que só títulos e é dono de um dos textos mais admirados aqui do blog. E o melhor: é extremamente acessível, simpático e, com a maior consideração do mundo, escreveu dicas valiosas de como fazer bons títulos (obrigado Kassu!). Então senta e abre o caderno que a aula vai começar.

 

Andre-Kassu so titulos

O bom título é um comentário roubado, um diálogo da rua pescado sorrateiramente. Ele foge dos que não observam a vida real e acreditam que a verdade mora apenas nos anuários. Você pode ler todos os livros e manuais de propaganda, mas só chegará ao refinamento quando aprender a observar em volta.

O bom título exige que você pense em cada palavra para que ele soe natural. Com tanta coisa boa já criada, o cuidado na escolha de um artigo pode ser crucial. Arrisque nas formulações, nas estruturas mais estranhas. Fale os seus títulos em voz alta (ok, pode falar baixinho para não soar louco). Perceba se ele tem alguma trava, se as vírgulas estão bem posicionadas

Leia mais livros e menos anuários.
Frequente mais as ruas e menos as festas de propaganda.
Saia de casa com a certeza de que os bons títulos escapam rápido.
Corra atrás deles com os pés no chão.
Afinal, quem caça de salto alto pode até achar alguns bons. Só que em alguma hora, a queda é inevitável.

 

Quem faz dá a dica: Igor Oliveira

Mais dicas de como fazer títulos de um redator que faz isso há anos. O convidado da vez é o redator mineiro Igor Oliveira, formou em 2004 aqui em Minas e já trabalhou nas agências MPM Propaganda, New360º, Jbis Propaganda e Solution Comunicação. Atualmente, está na RC Comunicação. Olha só as dicas que ele tem pra você:

Dicas de como encarar um job de títulos:

1. Lembre-se de todas as fórmulas que você já usou para construir seus títulos: jogo de palavras, dois tempos, etc.

2. Descarte todas elas.

Um bom título é aquele que ninguém espera. O comentário roubado. O raciocínio inteligente e original. E, para chegar até ele, você precisa escrever muito. Mas, antes disso, precisa ter lido muito. Só assim para encontrar associações não óbvias e dar sentido a todas elas usando poucas palavras.

Para encontrar essas associações, você precisa também conhecer seu cliente. Ou melhor: os consumidores do seu cliente. Pesquise sobre eles. O que eles fazem quando acordam, almoçam, quando se divertem, quando não fazem nada e estão ali lendo seu anúncio? Esse cara precisa se identificar com suas palavras. É pra ele que você está escrevendo.

Lembre-se: o título é a síntese de tudo aquilo que você quer dizer sobre seu produto. Se ele for ok, seu produto será ok. Se ele despertar um riso no canto da boca, alguma emoção, será algo mais. Mesmo que o produto seja, em si, uma bosta. Você não precisa ser.

Quem faz dá a dica: Mateus Coelho

Mais um redator do mercado cheio de dicas para vocês. Desta vez é o Mateus Coelho, mineiro, vencedor do Young Lions MG 2013 e recém desembarcado no mercado de São Paulo. Um jovem redator que tem muito o que contar pra gente. Olha só:

 

Uma vez, tive um professor que explicava a matéria de uma forma. Se a turma não entendia, ele não repetia. Procurava outro caminho para explicar a mesma coisa. E fazia isso até todo mundo entender.

Fazer títulos é parecido com isso. Você fala do produto de uma forma, então fala de outra, busca uma terceira maneira, uma quarta etc.

Vamos pensar na prática. Imagine que você precise vender um carro dividido em várias parcelas. Você pode explorar caminhos como:

• Os atributos do carro
• As vantagens de dividir
• As vantagens de ter um carro novo
• O novo é melhor que o velho
• Di-vi-dir seu tí-tu-lo (como um anúncio do Banco Volkswagen)
• Diferenciais do modelo do carro
• Diferenciais da montadora
• Diferencias da revenda de carros
• E mais um bocado de caminhos diferentes.

Além disso, há algumas coisinhas que ajudam na hora de escrever.

INSPIRE-SE NO DIA A DIA.
Use experiências que você tem, situações do cotidiano, casos, piadas, situações com as quais o leitor vai se identificar.

SEJA SIMPLES E DIRETO. 
Você não precisa de uma frase rebusca ou cheia de inversões para seu título ser inteligente e interessante.

USE A ORDEM DIRETA SEMPRE QUE POSSÍVEL. 
É mais fácil de ler do que: Sempre que possível, use a ordem direta.

ESCREVA, ESCREVA, ESCREVA. PARE, RESPIRE. ESCREVA, ESCREVA, ESCREVA. 
Às vezes, você precisa levantar da sua cadeira, dar uma volta pela agência, pelo quarteirão, sair do computador nem que seja por um minutinho para refrescar a cabeça.

ENTENDA O UNIVERSO DO SEU PÚBLICO. 
Surfistas tem um mundo à parte. E, acredite, funcionários públicos também.

FALE A LINGUAGEM DO SEU CLIENTE. 
Título engraçadinho pode cair muito bem para uma cerveja e muito mal para uma mineradora.

LEIA MUITO E LEIA DE TUDO. 
Há várias formas de se contar uma história. E, quanto mais formas você conhece, mais maneiras você descobre de passar a sua mensagem. Romances, quadrinhos, tweets, roteiros, bulas, placas de aviso, anuários, Só Títulos. Diversifique as coisas que você lê.

DEIXE ACONTECER NATURALMENTE. 
Dicas e regras ajudam, mas, na hora de escrever, solte a mão. Não escreva se policiando o tempo todo. Depois de fazer diversas versões, aí sim, use seu filtro (baseado no briefing também) para escolher as melhores opções.

Boa sorte.